Como assim? 
O projeto é simples: dar atenção a qualquer um que se encontra em uma rodovia como a BR 101. Foi utilizada apenas fotografia e a simples técnica do diálogo para registrar. É parar, fotografar, conversar, anotar. Com isso, descobrir um pouco sobre vidas alheias, um pouco sobre os caminhos que cada um pode chegar. Saber que um anônimo qualquer pode ser o foco de um livro, de uma crônica.

 É isso. Não mais que isso. 
As crônicas podem ser apenas uma impressão do autor, uma síntese de histórias semelhantes, uma verdade específica, uma interpretação livre. Todas baseadas em conversas, que por sua vez, trazem um pouco da estrutura de cada região. Por ser um projeto amplo, registramos o trecho sul da BR 101, que são cerca de mil quilômetros.
 O trecho se inicia na divisa de Santa Catarina com o Paraná e termina em São José do Norte, no Rio Grande do Sul. É quase inteiramente federal, apenas depois de Osório (RS), no sentido sul, há cerca de duzentos quilômetros que são de responsabilidade estadual. Não houve um critério em escolher quem entrevistar. Foram apenas momentos investidos.Nem todos renderam histórias e nem todos renderam fotografias. O que você vai encontrar a seguir é a síntese da viagem.
 Um trajeto de sete dias esmiuçados na estrada. Sete dias usados para conhecer pessoas e lugares. Sete dias que resultaram em um trabalho opinativo fotográfico, ilustrado através de palavras que formaram crônicas.  
 As estratégias da Dona Olívia  
Eram 15 para as três da tarde. Ela já estava em seu lugar estratégico e, carro por carro, fitava-os com calma e esperança. Não adiantaria ficar no canto da rua, esperar por alguém com tempo e sem medo lhe oferecer uma mão. Ela precisava de uma estratégia. Ia direto até padaria que fazia fronteira com a BR 101. Lá, seria o melhor lugar para executar seu plano. 


Pai e filho queriam voltar logo para a rodovia. Tinham ainda uma longa viagem a caminho. Mas, como de costume, antes de viajar passaram em alguma mercearia para comprar água e comida. Lembraram da padaria que viram quando chegaram a São José. Resolveram comprar algo lá mesmo, afinal, era um dos poucos comércios na cidade.   

*** 
Dona Olívia não precisava se arcar para ver o carro se aproximando devagar. Não precisava se arcar porque era, naturalmente, arcada. Há alguns anos teve um problema de coluna e nunca mais conseguiu resolver. A solução encontrada foi usar uma bengala para se locomover. Bengala que, carinhosamente, Dona Olívia chamava de cacetinho. A dona tinha cabelos já brancos, um rosto maltratado pelo tempo, um sorriso um pouco forçado. Além disso, gostava de usar um lenço envolto ao cabelo. Isso e o cacetinho, eram sua marca pessoal 
*** 
Tudo que precisavam eram duas garrafas de água e umas bolachas. Foram à padaria comprar seus mantimentos. O pai,  um senhorzinho padrão com barriguinha de cerveja, careca e de bem com a vida, apesar de sempre falar como se estivesse resmungando. O filho, não muito diferente do pai, era apenas mais alto. De resto seguia no mesmo caminho. Quase careca, quase com uma barriguinha saliente e de bem com a vida, só não fala resmungando como o pai. 
*** 
Dona Olívia se distraiu enquanto conversava com as amigas na porta da padaria e quase perdeu os dois de vista. Por sorte, a batida da porta do carro a chamou atenção. Ela correu. Quer dizer, correu se você considerar andar com uns pulinhos e uma bengala algo como correr. De qualquer forma, fez um esforço para ir mais rápido que o normal. Antes que os rapazes pudessem ligar o carro, Dona Olívia apareceu na janela, com o rosto ensaiado para pedir alguma coisa importante. Alias, parecia mais que era algo de vida ou morte. 
***
Estratégia completa. Missão cumprida. Carona garantida pelos próximos 15 km até a entrada do beco. Agora que já estava no carro, faltavam apenas outras duas missões: os convencer de ir até a sua casa, 5 km adentro e converter os viajantes a sua igreja preferida.   
 - Eu entrego panfletos. Gosto de fazer isso sabe?
 - E o que mais gostas de fazer? 
- Eu gosto de entregar panfletos. Ando por aí tudo. Gosto disso!
 - E qual seu nome?
 - O que você quer? 
- Conhecer pessoas por toda a BR 101, para registrar as diferentes conexões na mesma rua. 
- Então você deve saber qual é a minha origem. Eu sou Português ou Espanhol? 
- Não sei, não faço idéia. Eu sou de família italiana, mas não tem nada que me entregue com descendência de Italiano, tem? 
- Teu nariz. É nariz de Italiano! (Isso quis dizer que ele é grande ou pequeno?)
 - Mas, me diz, você é o que no final das contas? 
- Não sei, adivinha.   
- Espanhol? - Português! 
- Você é daqui de Capivari? (RS)
- Não, sou de Palmares (RS). To aqui para entregar panfletos. Eu gosto disso.  Em qual jornal isso vai sair? Eu sirvo para o teu trabalho? 
- É um trabalho de faculdade.  E sim, já estou lhe entrevistando.   
- Eu gosto de entregar panfleto. Sou gremista e evangélico também.  
- E como é seu dia-a-dia? 
- Eu entrego panfleto. E o dia-a-dia aqui na cidade é fraco. Capivari já foi uma cidade melhor. Mas vai melhorar quando instalarem os cata-ventos! (Parque Eólico) 
- Mas e... 
- Isso vai dar algum problema? Vou ter que pagar alguma coisa? 
- Não, claro que n... 
- Vais ter que botar meu nome?   
- Depende. Você não quer que eu use seu nome? 
- Pode sim. Mas não ele com sobrenome. Me chama só de Joel de Palmares. 
- Ok, sem problemas.   
- Tu és casado? 
- Não! Sou livre e desimpedido! E evangélico!  Vai ter uma foto de mim? Pra qual jornal vai? 
- Já ti fotografei na verdade! E não vai para um jornal, vai para um livro acadêmico. 
- Já fotografou? Mas bate de novo. Quero sem óculos. Ah e não pega a propaganda da camiseta, eu não quero problemas!   
- Ok!     - Vou anotar o endereço aqui pra você me enviar o livro pronto, tá? 
- Ta certo! Mas você pode dizer ...   
- Tchau! Tchau! Me manda um livro tá? Não vai dar problemas né? Tchau Tchau! Até mais.  
 E assim, atravessou a rodovia e me deixou lá. Querendo saber ainda mais sobre ele além de seu gosto por entregar panfletos.   
 Contador de histórias  
 Quando se anda em muitos lugares diferentes, em algum momento dessa viagem você conhece um contador de história. Aquele cara quieto, observador e pronto para revelar os mais divertidos contos assim que você der uma brecha. Esse contador de história eu conheci naquelas vendinhas mescladas com lanchonete de beira de estrada, pertinho de Florianópolis, em Santa Catarina. A BR foi asfaltada em 1972, em 75 abriram a primeira vendinha e a dele, em 80, foi a segunda da região.
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Um taxista parou no comércio. Estava com o rosto acabado, bastante desgastado. Na carona do carro, uma mulher com ar de importante, sentada com uma feição bastante angustiada. Isso foi há uns quinze anos.  O taxista entra e encontra José, “o contador de histórias”. Pergunta quantos quilômetros ainda faltam para chegar a Torres, no Rio Grande do Sul. O vendedor, acostumado com as freqüentes perguntas de pessoas perdidas sobre a direção dos lugares, fica um pouco surpreso. Nunca ninguém havia lhe perguntado sobre uma cidade tão longe. Fez os cálculos. Ele deve demorar ainda umas duas horas e meia, se o trânsito estiver bom.
O taxista, aliviado com a informação, resolve comprar um salame caseiro. Sabe como é, quase que todo mundo que para no comércio acaba levando um salame, ou um queijo, ou um pé-de-moleque. Qualquer coisa, só pra não admitir que foi lá apenas para pedir informação. 
 José acompanha o Taxista até a saída. Conversam coisas banais. Tempo. Chuva. Futebol. Quando José repara a cor do Taxi fica mais surpreso ainda. Já sabendo a resposta, pergunta quase que de reflexo para o cliente.    
- Você veio de onde? 
 - De Porto Alegre, responde (os taxis na capital gaúcha são da cor laranja).   
 - Íhh moço, pode voltar. Você passou 200 km do seu destino!  
(Tá certo que eu duvidei da história quando escutei. Como pode uma pessoa viajar por 200 km além de onde deveria ir! Mas tá, quinze anos atrás, a sinalização não era das melhores na BR 101. E, em se tratando de histórias, tudo pode acontecer. )    
Após uma noite de carnaval, um casal, ainda empolgado, estaciona o carro ao lado do de José. Entram na vendinha para comer alguma coisa antes de continuar a viajar. O homem vai pagar o lanche enquanto a namorada vai ao banheiro. Depois, iriam se encontrar no carro. Tudo certo, o homem paga e vai para o carro esperar.
 A namorada, depois de ir ao banheiro, vai para o carro também esperar. Nenhum dos dois havia notado que o carro de José era idêntico.  A espera só acabou quando o namorado olhou para a garota no carro ao lado e reconheceu a sua amada. 
(Tudo bem, não acreditei muito. Mas, pensando bem, foi há uns 20 anos, era de manhã bem cedo. Acho que é até compreensível que um casal com ressaca tenha cometido isso e que José tenha esquecido o carro aberto em frente à vendinha.   Na real, quer saber? Vou parar por aqui, já deu pra perceber que tô sentindo que é tudo caô. Deixa pra lá então.)
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CAFÉ, CABELO, PAREDE E CACHAÇA

O que é uma promessa? Eu não sei. Não sei dizer mesmo o que é isso.
Diria que é algo que alguém quer muito e diz que vai fazer alguma coisa totalmente desconexa de seu desejo para - adivinhem? – alcançar o objetivo. É como se a pessoa pedisse para nascer cabelo e, para isso, começasse a quebrar uma parede. Não faz sentido. 
Existem também promessas pessoais. Você não pede nada para ninguém, apenas diz, com muita vontade e para si mesmo, que vai passar a fazer uma coisa que nunca fez.  Eu prometo que vou parar de tomar refrigerante. Se eu não cumprir essa promessa, nada acontece. Se cumprir, menos gordura – e aí?
Promessa me parece algo inventado, criado pelos humanos. Uma forma de comprar algo milagroso, impossível ou improvável. A moeda de troca no caso das promessas é algo geralmente humilhante, trabalhoso, cansativo. Algo que pode tomar o tempo de uma vida inteira. É como se viciar em cachaça para acabar com o vício do cigarro. Uma fraude.
Felisbina da Silva Cardoso teve dois momentos diferentes na vida. O primeiro, antes de se casar. Vivia no quilometro trezentos e alguma coisa, na margem da BR 101, entre as cidades de Tavares e São José do Norte, no Rio Grande do Sul. Nessa época não sabia de seu problema de coração. Seu dia-a-dia se resumia em ajudar nos afazeres da casa, na colheita e, vez ou outra, ir a São José do Norte (ou Tavares) comprar o que faltava. A rodovia em si ainda não existia. Era apenas a estrada do inferno e muitas dunas para atravessar. 
A segunda parte de sua vida começa quando se casa. A primeira mudança foi a aquisição do novo sobrenome: Cardoso. A outra grande mudança foi a nova casa. Agora fica nos quilômetros trezentos e um pouco mais. Ficou mais perto ainda de São José do Norte (e longe de Tavares). Já existia a BR 101. Sua rotina era fazer os afazeres da casa, como pão, comida, lavar a roupa e a limpeza. Não precisava plantar e nem colher mais, pois agora tinha problemas com o coração. Vez ou outra ia para a cidade comprar as coisas que faltavam... De resto, tudo se repetia. É isso.
Não é tarde 

Ele empacotou todas as suas coisas e foi em busaca de seu novo começo. Passou na padaria que costumava filar um lanche e disse adeus. Despediu-se dos amigos que conseguiu encontrar. Seguiu em frente. Teria que andar durante quase dois dias inteiros. Mas tinha que ser cuidadoso, não poderia seguir durante a noite e por isso sua viagem duplicou. Não tinha muito com o que se preocupar. Um novo começo só é doloroso para quem tem o que perder. No seu caso perdeu quem amava há 20 anos. Sabia que ela estava bem. E sabia também que não fazia mais parte dessa vida. Agora, aos 50 , era a sua vez de um novo começo. 
Durante a noite, quando o cansaço vencia, escolhia um lugar escondido o suficiente para dormir. Geralmente ficava em algum mato perto de um posto de gasolina. Tinha medo de ser encontrado dormindo. Seus amigos já apanharam algumas vezes por estarem descansando em lugares visíveis. 
Uma mochila para carregar algumas camisetas. Uma sacola com alguma comida e cachaça. Na carteira, todos os documentos importantes para uma nova vida. Identidade, CPF, carteira de trabalho. Tudo devidamente guardado. Não queria apanhar ou ser levado pelos policiais por não ter documento de identidade. Nunca foi parar na polícia e não queria que isso acontecesse agora, não na sua vida nova.
A cachaça? Bem, ela serve para aquecer. Andar na rodovia e dormir na rua é impossível sem um estimulante. E ele tinha.  O estimulava não só para isso, mas também para esquecer sua antiga vida. É como se ele bebesse para esquecer que bebe. Mas, em Porto Alegre as coisas vão ser diferentes do que eram em Torres, sua terra natal. 
Vai procurar alguma instituição, alguma igreja, alguma pessoa que possa ajudá-lo a vencer o vício. Depois vai para as ruas catar papelão e vender, até juntar dinheiro suficiente para poder pagar um barraco qualquer para dormir. Qualquer coisa que seja melhor que o chão será ótimo. De todos os sonhos grandes que já teve, o único que sobreviveu de sua vida em Torres foi o de dormir em um lugar com cama e sem precisar estar bêbado para se esquentar.